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Segunda-feira - 20/07/2009
A Rivalidade Nasceu Com Eles
O documento mais antigo da história do Inter encontra-se a 317 quilômetros de Porto Alegre, bem guardado no fundo de um cofre de aço da sede do Sport Club Rio Grande, em Rio Grande. É um ofício ressecado por todo um século de existência, espécie de atestado de que a rivalidade acérrima entre Grêmio e Inter existia antes mesmo da realização do primeiro Gre-Nal.
Ao menos no lado colorado.
Neste documento, os fundadores do Inter colocam-se à disposição dos “captains e demais footballers” do Rio Grande, que viajaram de vapor à Capital a fim de enfrentar o Grêmio. O primeiro presidente do Inter, João Leopoldo Seferin, oferece a sede do clube à delegação riograndina. O endereço da sede é citado no ofício: Rua General Caldwell, 103, não longe de onde hoje se situa o prédio de Zero Hora. Era lá que morava um dos fundadores do Inter, Henrique Poppe Leão.
O relevante é a data do documento: 23 de maio de 1909, 19 dias depois da fundação do Inter e quase dois meses antes do Gre-Nal número 1. E os colorados já estavam ajudando os adversários do Grêmio...
Essa é uma das provas de que já havia, entre os colorados pioneiros, certo ressentimento em relação ao Grêmio. O ressentimento se agigantou, com carradas de razão, devido ao primeiro Gre-Nal, disputado em 18 de julho de 1909. A goleada que o Grêmio impingiu, 10 a 0, não pode ser considerado um resultado natural, nem se se considerar a inexperiência dos jogadores do Inter. Não, 10 a 0 foi uma demasia. Tanto que alguns jogadores e dirigentes do Inter simplesmente desistiram de prosseguir na prática do esporte.
Outros não.
Outros se cevaram nessa dor, e é por isso que o primeiro Gre-Nal tem importância ainda maior do que a de ser o primeiro Gre-Nal.
Dois dos colorados que tiraram motivação em vez de frustração dos 10 a 0 são especiais: Antenor Lemos e Carlos Kluwe.
Antenor Lemos, não se podia dizer que fosse bom jogador. Um esforçado, no máximo. Mas como dirigente vestia a 10. Antenor Lemos defendia o Inter com uma galhardia inédita naquele tempo de fidalguias. E cultivava uma ojeriza pelo Grêmio que só depois de muitos anos se tornaria comum entre torcedores. Já Carlos Kluwe, esse era bom de bola. Um metro e noventa de altura, elegante, jogava como médio, posição que hoje se equivale à de volante. Kluwe prometeu, depois dos 10 a 0:
– Só posso largar isso de futebol depois de ganhar do Grêmio.
Só que o Inter nunca ganhava do Grêmio. Seguiu apanhando: 5 a 0 em 1910, 10 a 1 em 1911, 6 a 0 em 1912. Porém, aos poucos o tamanho do placar foi diminuindo: 2 a 1 ainda em 1912, 2 a 1 em 1913... Até que, em 1915, ocorreu a primeira vitória colorada. E foi um rotundo 4 a 1. Sem Kluwe, que já tinha desistido da bola, mas ainda assim um jogo histórico. Porque, ao vencerem, os colorados fizeram tamanha festa, a comemoração foi tão ruidosa, que o ressentimento passou para o lado gremista, e a rivalidade Gre-Nal, enfim, foi estabelecida.
Kluwe conseguiria cumprir sua promessa quatro anos depois, em 1919. Aos 27 anos de idade, já era ex-jogador, mas o centroavante do Inter, Bedionda, se lesionou e não podia jogar o Gre-Nal. Desesperados, dirigentes e torcedores chegaram a fazer um abaixo-assinado implorando para que Kluwe voltasse a jogar aquela única partida. Ele aceitou, entrou em campo como centroavante, marcou um gol e o Inter venceu por 2 a 0.
Kluwe foi o primeiro herói colorado.
O Grêmio tinha outros, e muitos. Mais organizado, mais rico, o Grêmio foi sobranceiro nas primeiras quatro décadas do futebol porto-alegrense. A superioridade em Gre-Nais o demonstra: até 1938, o Grêmio venceu 32 clássicos, contra 15 do Inter e seis empates.
A partir de 1938, tudo mudou no futebol da cidade. Tudo foi diferente. Por causa de um personagem: o negro.
No começo do século 20, os grandes clubes da cidade não aceitavam negros como sócios ou jogadores. Os negros jogavam o seu próprio campeonato, organizado pela chamada “Liga da Canela Preta”. Pois bem. Quem teria sido o primeiro negro a atuar numa equipe da Dupla Gre-Nal? A Canela Preta respondeu a essa pergunta. Não a antiga; a nova: o “Grupo Canela Preta”, fundado, entre outros, por integrantes da Associação Negra de Cultura de Porto Alegre. O Grupo da Canela Preta organiza campeonatos e pesquisa sobre o negro no futebol gaúcho. Desencavou um fato surpreendente: o primeiro negro na Dupla Gre-Nal jogou no Grêmio. Chamava-se Adão Lima, era atacante e atuou em 1926, ao lado de Lara e Luís Carvalho. O Inter só escalou um negro em 1928, o médio Dirceu Alves.
No entanto, nos anos 20, os dois clubes, Grêmio e Inter, continuavam cultivando o preconceito. Os negros eram apenas tolerados, desde que não chamassem muito a atenção. Dirceu Alves e Adão Lima não poderiam mesmo ser considerados luminares em seus times. Nos anos 40, o Grêmio até teve um bom ponta-esquerda negro chamado Mário, um carioca. Mas, sobre esse, os torcedores diziam, brincando:
– O Mário não deve ser negro; ele joga no Grêmio...
| Fonte: Internet |  | | No final dos anos 30, aí sim, o Inter quebrou o preconceito de fato. Passou a se abastecer na Liga da Canela Preta, e isso fez toda a diferença. O Inter não perdia mais. Foi nessa época que acumulou sua vantagem em Gre-Nais. Um fenômeno: até 1950, o Inter venceu 37 clássicos, houve 12 empates e o Grêmio só obteve oito vitórias. Oito em 12 anos!
É desse tempo a maior goleada que o Inter impôs ao Grêmio: 7 a 0 em 1948. Verdade que o Grêmio jogou com reservas – a direção havia rompido com a Federação e mandou os titulares para um amistoso em Curitiba. Mas o placar tornou-se um eloquente símbolo da superioridade colorada no período.
O Grêmio só se reergueu quando finalmente aboliu o preconceito racial. O autor dessa façanha foi talvez o maior presidente da história do clube: Saturnino Vanzelotti. Todas as passagens importantes desses anos são emblemáticas: para liquidar com o racismo, Vanzelotti contrata o maior ídolo do grande Inter negro dos anos 40, Tesourinha. Para tornar o Grêmio maior como clube, constrói o Estádio Olímpico. Na inauguração do Olímpico, Tesourinha estava em campo – do lado do Grêmio. E o Inter aplicou uma goleada de 6 a 2. Era a última proeza daquele time. Meses depois, Vanzelotti contrataria Foguinho como técnico e, com um time cheio de negros, o Grêmio é que não parou mais de vencer: conquistou 12 campeonatos em 13 anos.
O futebol gaúcho só mudaria de rumo depois de outro Gre-Nal simbólico. Outra inauguração de estádio. Desta vez o do Inter, o Beira-Rio, num 0 a 0 em que 20 jogadores foram expulsos, um recorde. Só o goleiro Alberto, do Grêmio, e o meia Dorinho, do Inter, não receberam cartão vermelho, porque só eles não brigaram a socos e pontapés, como os demais.
O tempo continuou sendo marcado em Gre-Nais no Rio Grande: o Grêmio só retomaria a hegemonia depois que André Catimba sofreu uma distensão em pleno ar ao dar um salto mortal para comemorar o gol que concedeu ao time do Olímpico o campeonato de 1977. A superioridade gremista foi longa, durou quase 30 anos. O Inter só teria algum desafogo no famoso Gre-Nal de “Uh Fabiano”, os 5 a 2 de 1997.
Desde 2006, quando o Inter enfim se igualou ao Grêmio ao conquistar o título da América e o do mundo, a fase inegavelmente é vermelha. Em 2009 foram três Gre-Nais e três vitórias coloradas. O Inter é um dos líderes do Brasileirão, o Grêmio se arrasta em oitavo lugar.
Neste domingo, quando se completam 100 anos e um dia daquele primeiro Gre-Nal no Fortim da Baixada, o que se dará? O Inter confirmará o bom momento e seguirá na frente na segunda década do novo século? Ou o clássico marcará mais uma mudança na história do futebol gaúcho? Seja qual for a resposta, o certo é que esse jogo secular continuará suscitando perguntas, alegrias e aflições para os dois lados por muito, muito, muito tempo.
*Texto publicado na página 38 de Zero Hora dominical
Postado por David Coimbra
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